O POVOADO DOS MOINHOS ( Village of the Watermills) No último conto de "SONHOS" (Akira Kurosawa), um viajante chega a uma pequena aldeia, e conversa com um velho habitante. Choca-se com o fato de a aldeia não possuir energia elétrica. "Mas a noite é tão escura", ele observa. "Sim, a noite tem de ser assim. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite". E prossegue: "Hoje em dia, as pessoas se esquecem de que elas são só uma parte da natureza. Destroem a natureza, da qual nossa vida depende". O filme trata também das tradições, e da importância de mantê-las, para a nossa própria sobrevivência e do planeta. Aborda a sabedoria dos mais velhos, e a simplicidade como forma de viver bem, em harmonia, sem destruição. Com esse último sonho, após vermos o horror em imagens pungentes, Kurosawa nos leva de volta a um passado que também existe, ainda, em nosso inconsciente coletivo, com lições prontas a serem resgatadas hoje, e que podem evitar que os piores pesadelos de nossa civilização se tornem realidade. Segue o diálogo: Viajante -- Qual o nome deste povoado? Ancião -- Não tem. Só chamamos de "O Povoado". Alguns chamam de Povoado do Moinho. Viajante -- Todos os habitantes moram aqui? Ancião -- Não. Moram em outros lugares. Viajante -- Não há eletricidade aqui? Ancião -- Não precisamos. As pessoas acostumam-se ao conforto. Acham que o conforto é melhor. Rejeitam o que é realmente bom. Viajante -- Mas, e as luzes? Ancião -- Temos velas e óleo de linhaça. Viajante -- Mas a noite é tão escura. Ancião -- É. Assim é a noite. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não ia querer noites claras, que não deixassem ver estrelas. Viajante -- O senhor tem arrozais. Mas não tem tratores para cultivá-los? Ancião -- Não precisamos. Temos vacas, temos cavalos. Viajante -- O que usa como combustível? Ancião -- Lenha, na maioria das vezes. Não achamos direito cortar árvores, e muitos galhos caem sozinhos. Cortamos e usamos como lenha. E para carvão de madeira, poucas árvores aquecem tanto quanto uma floresta. Também estrume de vaca dá bom combustível. Gostamos de viver respeitando a natureza. As pessoas, hoje, esqueceram que são apenas parte da natureza. Mas destroem a natureza da qual dependem nossas vidas. Elas sempre acham que podem fazer melhor. Especialmente os cientistas. Podem ser inteligentes, mas não compreendem o verdadeiro significado da natureza. Só inventam coisas que tornam as pessoas infelizes. Mas têm tanto orgulho das invenções deles. Pior é que muita gente também se orgulha. Encaram-nas como milagres. Idolatram-nas. Não percebem, mas estão perdendo a natureza. E, como conseqüência, vão morrer. As coisas mais importantes para o ser humano são ar puro e água limpa, as árvores e grama que os produzem. Tudo está sendo poluído, e perdido para sempre. Ar sujo, água suja, sujando os corações dos homens. 

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O POVOADO DOS MOINHOS ( Village of the Watermills)
O POVOADO DOS MOINHOS ( Village of the Watermills) No último conto de "SONHOS" (Akira Kurosawa), um viajante chega a uma pequena aldeia, e conversa com um velho habitante. Choca-se com o fato de a aldeia não possuir energia elétrica. "Mas a noite é tão escura", ele observa. "Sim, a noite tem de ser assim. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite". E prossegue: "Hoje em dia, as pessoas se esquecem de que elas são só uma parte da natureza. Destroem a natureza, da qual nossa vida depende". O filme trata também das tradições, e da importância de mantê-las, para a nossa própria sobrevivência e do planeta. Aborda a sabedoria dos mais velhos, e a simplicidade como forma de viver bem, em harmonia, sem destruição. Com esse último sonho, após vermos o horror em imagens pungentes, Kurosawa nos leva de volta a um passado que também existe, ainda, em nosso inconsciente coletivo, com lições prontas a serem resgatadas hoje, e que podem evitar que os piores pesadelos de nossa civilização se tornem realidade. Segue o diálogo: Viajante -- Qual o nome deste povoado? Ancião -- Não tem. Só chamamos de "O Povoado". Alguns chamam de Povoado do Moinho. Viajante -- Todos os habitantes moram aqui? Ancião -- Não. Moram em outros lugares. Viajante -- Não há eletricidade aqui? Ancião -- Não precisamos. As pessoas acostumam-se ao conforto. Acham que o conforto é melhor. Rejeitam o que é realmente bom. Viajante -- Mas, e as luzes? Ancião -- Temos velas e óleo de linhaça. Viajante -- Mas a noite é tão escura. Ancião -- É. Assim é a noite. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não ia querer noites claras, que não deixassem ver estrelas. Viajante -- O senhor tem arrozais. Mas não tem tratores para cultivá-los? Ancião -- Não precisamos. Temos vacas, temos cavalos. Viajante -- O que usa como combustível? Ancião -- Lenha, na maioria das vezes. Não achamos direito cortar árvores, e muitos galhos caem sozinhos. Cortamos e usamos como lenha. E para carvão de madeira, poucas árvores aquecem tanto quanto uma floresta. Também estrume de vaca dá bom combustível. Gostamos de viver respeitando a natureza. As pessoas, hoje, esqueceram que são apenas parte da natureza. Mas destroem a natureza da qual dependem nossas vidas. Elas sempre acham que podem fazer melhor. Especialmente os cientistas. Podem ser inteligentes, mas não compreendem o verdadeiro significado da natureza. Só inventam coisas que tornam as pessoas infelizes. Mas têm tanto orgulho das invenções deles. Pior é que muita gente também se orgulha. Encaram-nas como milagres. Idolatram-nas. Não percebem, mas estão perdendo a natureza. E, como conseqüência, vão morrer. As coisas mais importantes para o ser humano são ar puro e água limpa, as árvores e grama que os produzem. Tudo está sendo poluído, e perdido para sempre. Ar sujo, água suja, sujando os corações dos homens.